UNATI

Justificativa

Em muitos países, principalmente nos que possuem melhores condições sócio-econômicas, propiciam-se atividades específicas aos cidadãos-idosos, com o objetivo de melhoria da qualidade de vida dos mesmos.
Sabe-se, também, que os cidadãos-idosos são detentores de vasto saber empírico que pode ser sistematizado, mediante projetos especiais de educação continuada. Essa possibilidade se insere tanto no âmbito da saúde, quanto das artes. Neste campo, é significativa a contribuição da sabedoria de pessoas idosas ao acervo cultural de qualquer região ou país, desde a arte culinária, marcada pela preferência por ingredientes naturais, hoje revalorizados pelo contributo à saúde, até a arte literária, em suas várias modalidades, quer através da linguagem oral como escrita.
No que tange à medicina caseira, há uma gama de saberes que vem sendo passado de geração em geração, pela oralidade, correndo-se o risco de se perder tal saber. A sistematização desses conhecimentos empíricos, bem como de outros relativos a várias áreas de vivências do cidadão-idoso, será uma contribuição à cultura patobranquense, se efetivado o Projeto ora proposto.
Além disso, o envolvimento dos cidadãos-idosos em atividades como as pretendidas pelo presente projeto, será benéfico no sentido de propiciarem-se atividades que se reverterão em momentos privilegiados para melhoria de sua auto-estima, com conseqüências positivas até mesmo para a saúde física e mental.
Observamos hoje que o ser humano é concebido como um ser que atravessa diferentes estágios sendo todos eles fundamentais para o desenvolvimento pleno do sujeito. Se voltamos nosso olhar para as teorias do desenvolvimento humano, particularmente nas áreas psicológicas e do desenvolvimento motor, estas já não mais apontam uma restrição da concepção do processo do desenvolvimento humano a um período determinado da vida do homem, como o propunha a teoria psicanalítica clássica. A superação dessa concepção propõe um homem que aprende desde o momento do seu nascimento até o momento da sua morte. Como exemplo disto podemos citar a teoria psicossocial de Eriksson (1997). Este autor entende que o ser humano deve enfrentar diversas crises ao longo da sua vida, não sendo determinantes os primeiros cinco anos de vida.
No campo do desenvolvimento motor observamos como o modelo proposto por Gallahue foi modificado pelo autor de um modelo piramidal, cujo fim coincidia com a fase adolescente, para um modelo que a partir dessa idade, ao invés de se restringir a motricidade esportiva, abre-se para um amplo espectro de práticas corporais a serem praticadas ao longo de toda a vida. Outro mito que deve ser criticado nesta área diz respeito à crença de que se o sujeito não recebia estímulos ambientais até uma certa idade iria ter comprometido o seu desenvolvimento motor, afetivo, cognitivo ou social. Pelo contrário, podemos afirmar que o homem é um ser cujas possibilidades de aprendizado podem ser despertadas em qualquer momento, como o demonstram os tão bem sucedidos programas de alfabetização para adultos, que tem com modelo paradigmático os programas de alfabetização de adultos de Paulo Freire.
Outro aspecto relevante sobre a temática que nos ocupa diz respeito ao valor social do idoso na ordem social contemporânea. O modelo de sociedade vigente propõe como ator social predominante o homem jovem, forte e produtivo. Por esse motivo, a população idosa é desvalorizada socialmente e, consequentemente, marginalizada. A postura deste projeto caminha em sentido contrário a esse pressuposto Acredita-se que a concepção de produtividade ligada à noção de acumulação de capital deve ser superada por uma concepção humanizadora, que contemple os projetos de vida coletivos e individuais dos cidadãos, valorizando as contribuições que cada ator social possa aportar. Num contexto social com essas características, a população idosa ocuparia um lugar de destaque, tendo em vista a trajetória de vida dessas pessoas. Nesse sentido, entende-se que é extremamente relevante rever os valores que norteiam nossa vida em comunidade, valores que privilegiam a exclusão e não a inclusão.
Ainda, a inclusão do idoso na sociedade não pode acontecer tratando esse sujeito como um objeto ao qual é dada a possibilidade de participar, mas pelo contrário deve ser realizado mediante um processo de conquista desse espaço de forma ativa. A cidadania, entendida como direito a ter direitos, também é um direito e um dever do idoso. O idoso poder trazer uma grande contribuição à construção da sociedade, a partir do seu vasto acervo cultural. Todavia, a cidadania não pode ser exercida sem uma formação básica que permita ao idoso compreender o mundo e as múltiplas determinações deste. Constata-se que um grande número de idosos não é alfabetizado, isto é, não conta com as ferramentas básicas para o acesso ao conhecimento.
O processo de alfabetização, como bem nos lembra Paulo Freire, não pode ocorrer de forma mecânica e reprodutiva. Pelo contrário, deve ser um processo de construção de conhecimento sobre o mundo, um processo de aprender a ler e escrever o mundo, isto é, uma caminhada que permita ao alfabetizando passar de um estado de consciência ingênua para outro estado superior, o da consciência crítica. Passar de um estado de compreensão deturpada dos determinantes do mundo social, para um entendimento claro de como este mundo funciona. Com base nesse conhecimento o indivíduo poderá também começar um processo de construção de uma nova sociedade junto ao seu coletivo.
Constata-se ainda, que a população idosa conta com muito tempo disponível, porém observamos que as ofertas de atividades para os idosos são limitadas. Assim sendo, não são oferecidas a este grupo condições para que tenham níveis adequados de qualidade de vida. Podemos pensar que este fato tenha como fundamento a concepção de que as produções humanas que não estejam orientadas a aumentar a produção industrial e o acúmulo de capital, não têm razão de serem implementadas. No entanto, o trabalho humano, entendido como toda produção humana criativa, deve ser estimulado ao longo de toda a vida, por esta ser entendida como meio para a transcendência humana, como tarefa humanizadora. Por esse motivo, acreditamos que a utilização ociosa do tempo disponível, mediante a ampliação da oferta de atividades que possam ser realizadas pelos idosos patobranquenses, é um meio adequado para elevação de seu nível de qualidade de vida. Considera-se que oportunizar a participação de cidadãos-idosos no projeto ora proposto, além do resgate cultural que se pretende, será uma forma de beneficiá-los pelo muito que têm contribuído para a sociedade.

A partir dos pressupostos até aqui elencados, apresentamos um conjunto de metas para serem executadas no andamento da UNATI, juntamente com o ensino, a pesquisa e a extensão da FADEP, bem como com o auxílio do Departamento de Cultura do município de Pato Branco:
a) Promover estudos, debates, pesquisas e assistência à população idosa do município de Pato Branco.
b) Prestar consultorias e serviços a órgãos governamentais e não-governamentais, em assuntos que envolvam a Terceira Idade.
c) Promover oficinas e cursos para as pessoas idosas, visando atualizar seus conhecimentos e integrá-los na sociedade do novo milênio.
d) Contribuir para a elevação dos níveis de educação, saúde física e mental das pessoas idosas freqüentadoras da UNATI de Pato Branco, utilizando recursos e alternativas existentes na própria instituição de ensino da FADEP, com o auxílio da Prefeitura Municipal de Pato Branco e seu Departamento de Cultura.
e) Oferecer à população idosa uma unidade de excelência, fazendo da UNATI um núcleo de apoio aos estudos sobre o envelhecimento humano.
f) Capacitar profissionais de várias áreas de conhecimento a lidar com os problemas que envolvem a população idosa.
g) Promover análises comparativas entre os estudos sobre Terceira Idade realizados no Brasil e no mundo.
h) Realizar seminários, publicações, documentos e quaisquer outras modalidades que tornem públicas as informações e os estudos desenvolvidos pela UNATI.

A UNATI de Pato Branco organiza-se a partir de seis eixos norteadores que dão sustentação à ação pedagógica durante a realização das oficinas:
1. Educação, entendida como um processo formativo e contínuo que acontece ao longo da vida.
2. Valorização das pessoas idosas no contexto social contemporâneo.
3. Utilização do tempo ocioso.
4. Formação e aprimoramento intelectual da população idosa da cidade de Pato Branco.
5. Promoção da cidadania e da qualidade de vida.
6. Resgate do acervo cultural e do saber das pessoas de Terceira Idade do município de Pato Branco